SOUSA LOPES, O PINTOR-POETA
Desde muito jovem, Adriano Sousa Lopes estava decidido a seguir os estudos em Arte e cedo delineou um percurso artístico, ao mergulhar num imaginário camoniano, no sentimento épico do poeta, por oposição ao ambiente depressivo do final da monarquia constitucional e de um reajuste das políticas coloniais face à afirmação das grandes potências. Naquele “engano de alma ledo e cego”, a pintura-poema que envolvia um cenário primordial de Jardim do Éden, transmitia a paixão de Pedro e Inês, narrada por Camões.
E será ainda submerso em emoção que Sousa Lopes traduzia na tela o poema melancólico de Antero de Quental, Palácio da Ventura, edifício tão desejado por um cavaleiro andante que apenas nele encontraria “silêncio e escuridão – e nada mais!”. Também o gosto por um “suave pensamento”, de um poema de amor de Luís de Camões, inspirou o abraço de apaixonados, ao por-do-sol, num moderno registo de cor e sentimento, igualmente expressos na profusão cromática da representação da Ala dos Namorados, vanguarda militar de jovens, na vitoriosa batalha de Aljubarrota, em 1385.
O escritor Aquilino Ribeiro tinha batizado Sousa Lopes como pintor poeta, em 1909, depois da sua primeira inspiração em Camões, e começava a avolumar-se a importância da “camaradagem espiritual” com o poeta Afonso Lopes Vieira, vivida desde a adolescência, em cumplicidades fraternas que permanecerão toda a vida, ligadas ao rasto das ideias lusitanistas defendidas pelo escritor. Era através da poesia, na evasão da história, da religião e da mitologia que Sousa Lopes expressava as razões da sua pintura.
Maria de Aires Silveira