PARIS E VENEZA. EFEITOS FUGITIVOS DA PAISAGEM
Sousa Lopes chegava a Paris entusiasmado. A cidade-luz era o ponto mais desejado por jovens intelectuais, artistas, estudantes de medicina. O centro das vanguardas e das novidades científicas. Em 1903, obtém a bolsa Valmor e inscrevia-se na École Nationale des Beaux-Arts para estudar com Cormon, interessado na pintura de ancestrais narrativas históricas. Encantado com os principais museus e depois de visitar o Prado, em Madrid, descrevia longas visitas ao Louvre, tanto na correspondência mantida com Columbano Bordalo Pinheiro, seu professor na Escola de Belas-Artes e diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea, como nas cartas escritas ao restaurador Luciano Freire, diretor do Museu Nacional dos Coches.
No Museu do Louvre apreciava os mestres holandeses e flamengos, os “poetas” Millet, Corot, Dupré, artistas naturalistas de paisagem ao “ar livre”, mas também os impressionistas. Encontrava em Paris o classicismo e a modernidade, linhas fundamentais para a formação da sua identidade artística.
Ao registar o movimento e os prazeres citadinos em pequenas pinturas impressivas, capta a atenção de Cormon que sugere o desenvolvimento desta via, “em efeitos fugitivos de paisagem e estudos ao ar livre”, a que acresce o importante convívio com o escultor moderno Pablo Gargallo e que certamente o ajudará a abrir horizontes e do importante colecionador da sua obra, Carlos Ahrends.
Descobria a luz das cidades, Paris e Veneza, em observações impressivas, através de uma espontaneidade emocional, e captava o instantâneo que o impressionista Monet sugeria. A modernidade aparecia nas suas telas em pinturas sensíveis e jogos luminosos que valorizavam a cor. Nenhum outro artista português se ligaria tanto ao Impressionismo como Sousa Lopes, através de uma luz filtrada e desdobrada em tonalidades intensas.
Maria de Aires Silveira