O PINTOR-POETA, COMPOSITOR DE RITMOS MUSICAIS DA COR

Na exposição individual de 1917, Sousa Lopes conta com um elogioso prefácio de Afonso Lopes Vieira, em “duas palavras de um camarada” que o apresenta como “pintor-poeta, compositor de ritmos musicais da cor”.

A camaradagem entre ambos era marcante, conheciam a importância da poesia e da pintura e cruzavam estas artes. Depois da experiência trágica na Grande Guerra, onde o registo de muito padecimento humano alterou o seu modo de observação, Sousa Lopes situou-se entre a magia da luz e a “serena paz dos campos”.

Regressou às paisagens luminosas, aos reflexos de mar e introduziu o olhar de antropólogo no exame da arte xávega, ao captar o trabalho no barco, a preparação das redes, e os gestos dos homens que enfrentavam a bravura do mar. Traduzia ideias “por formas e cor” e confessava a sua admiração pelos impressionistas. Fixava momentos com “espontaneidade e sinceridade de emoção”, ao apontar a “era moderna”, embora nunca esquecendo o entendimento da luz local na descoberta do país e das atividades piscatórias e rurais, mas também nas festas regionais, o que terá contribuído para o seu sucesso, em meios culturais e políticos nacionalistas

Em atualizações modernas, o artista reconhecia o seu fascínio pelo sol, protagonista nos cenários sociais e líricos que traçava, através do compromisso entre uma noção específica de identidade nacional e o “espectáculo da vida humilde”.

Maria de Aires Silveira

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