O LUGAR CERTO DA LUZ
Haverá para a luz um lugar certo, por oposição à banalidade do gesto e ao “preconceito” de uma realidade aceite. A luz no lugar certo combina com uma atitude moderna, perante a novidade do que habitualmente se considerava erro.
Será uma luz registada ao contrário do que se fazia na fotografia como “documento”, descritiva e sem emoções. Por isso, com a luz no lugar certo, não se “reconheceriam as feições das crianças, nem se contariam a uma por uma as pintinhas dos seus bibes”.
Tudo se faria ao inverso do “excesso de documentação”, mas tudo iria parecer um “desenho” porque uma prática estética atingiria, através da fotografia, “a possibilidade de sermos todos um pouco pintores”. Será num “saber ver” que os dois artistas se encontram, e aquilo que um via a preto e branco, via o outro em cor, mas os efeitos da luz mantêm-se nas obras do fotógrafo e do pintor. Importa saber ver com os olhos da alma, “com os olhos dos que amam (…) à luz natural e sem o menor retoque”.
É assim que Afonso Lopes Vieira apresenta uma espécie de manifesto da fotografia moderna que passa por uma questão de atitude, um paciente olhar e um trabalho insistente e determinado dos que praticam a “fotografia estética” e a necessidade de “admirar”.
Elimina-se a indiferença, tanto no retrato que elege a fisionomia moral, como na paisagem que valoriza a contemplação. Na produção de Sousa Lopes surgem os efeitos de luz e uma seriada observação dos seus reflexos, como uma mancha panorâmica do que o coração sabe registar.
Maria de Aires Silveira