JOAQUIM CORREIA (Marinha Grande, 1920 – Lisboa, 2013) O escultor e os ritmos musicais da forma
Em 1938, Joaquim Correia despertou a atenção de Sousa Lopes, professor na Escola de Belas-Artes de Lisboa, quando um episódio infeliz quase comprometeu a sua intenção de frequentar o curso nesta instituição. Falhas numa prova de francês e a recusa de ingresso em Belas-Artes por ser filho de operários vidreiros da Marinha Grande, apesar de alta classificação, quase o afastaram da formação pretendida. Contou com o apoio do professor Sousa Lopes e do escritor Afonso Lopes Vieira para a entrada na Escola de Belas-Artes do Porto, de 1940 a 1947. Este incentivo, a boa relação com Reynaldo dos Santos e a admiração de Teixeira Lopes potenciaram as suas capacidades artísticas, obtendo elevadas notas em todas as disciplinas.
Confessava-se contrário ao Academismo e à linha do seu mestre, Simões de Almeida Sobrinho, embora o professor admirasse o seu talento. Assíduo espectador de Teatro, relacionou-se com atores, como Maria Lallande, fixada num excelente busto. Efetuou também dois retratos de Afonso Lopes Vieira, encomendados pela viúva, e uma estátua urbana com uma volumetria e texturas originais e ousadas, numa percetível relação de cumplicidades com este vulto intelectual.
No entanto, preferia focar-se numa conversa com os retratados, registar a sua expressividade, o entendimento e emoção do autor, como nos bustos do irmão Guilherme e da avó. Desde cedo, acompanhava o trabalho de escultor com música, especialmente de autores clássicos, criando assim um ambiente favorável ao pensamento, no delinear de cada obra, em superfícies lisas e relevadas, sublinhando ritmos musicais da forma.
Em 1964, lecionava na Escola de Belas-Artes de Lisboa, no ano imediato era nomeado subdiretor, e de 1968 a 1974, seria o seu diretor. Recebeu muitos prémios, e, em 1972, aceitou a mais alta condecoração artística, o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.
Maria de Aires Silveira