EFEITOS DE LUZ: UT PICTURA POESIS
A proximidade das relações pessoais e vivenciais entre o pintor Adriano de Sousa Lopes e o poeta Afonso Lopes Vieira revela o fulgor produtivo da transversalidade da arte pictórica e da arte literária: ut pictura poesis.
Amigos desde a juventude, o Poeta seguiu, acompanhou e acarinhou todo o trajeto evolutivo – tantas vezes sinuoso e com picos de ansiedade e angústia – do pintor Sousa Lopes. Frequentaram-se na intimidade dos seus lares, e ateliê de trabalho, e cruzaram-se com uma correspondência reveladora de uma amizade fértil para ambas as obras artísticas.
O retrato de Lopes Vieira, tela de 1900, quando ainda assinava Adriano Sousa, guardada pelo Poeta como marca atemporal da sua biblioteca, atravessou os tempos e velará pelos livros partilhados com todos, enquanto houver presença física, olhar e memória. Algures, na (hoje) Biblioteca Municipal de Leiria, estão alguns dos textos literários que o Poeta leu e indicou ao Pintor, fontes para a obra pictórica; ou criou e lhe ofereceu, como estímulo para novas pinturas e vislumbre de outros olhares.
Entre a profusão de quadros de Sousa Lopes, revelados nas missivas ao amigo, é de destacar As Ondinas, objeto de detalhadas explicações técnicas e oficinais da arte pictórica. Se o Poeta admirou, interpretou e reescreveu Heinrich Heine, o Pintor deu-o a ver com uma pujança inusitada.
Cristina Nobre