É A GUERRA! A MALTA DAS TRINCHEIRAS

Em contexto polémico, Américo Olavo lamentava, em 1919, a discussão sobre a comparticipação de Portugal na Grande Guerra e o modo como foi depreciada e diminuída. Américo Olavo alistara-se no primeiro momento, em 1914, partia para a Flandres em 1917, onde se encontrara com Sousa Lopes e admirava os seus “quadros de guerra”, em lugares onde “ninguém pode aventurar-se sem risco”. Também Jaime Cortesão o descreve, “na primeira linha, a setenta, oitenta metros do boche, sentar-se num saco e, imperturbável, apontar de crayon em punho, demoradamente”.

Interessava a Sousa Lopes captar a tragédia e o drama destes homens que enfrentavam o medo. Era oficial-artista, um “óptimo soldado”, referia noutro relato de memórias André Brun. Sousa Lopes pedira-lhe que o recebesse na sua “trincha” e integrou-se no bem-humorado grupo que reunia à noite no Pátio das Osgas, na Ferme du Bois, na Flandres. Junto à trincheira, traçou a carvão o seu retrato, elogiando a sinceridade de André Brun, enquanto o capitão destacava a honestidade artística dos desenhos que valorizavam as “verdadeiras caraterísticas” dos desalentados heróis, trabalhando sem querer “incomodar”, rematava, com educada elegância.

Já Aquilino Ribeiro confessa no livro sobre estes episódios de guerra que “narro, em obediência sempre à minha divisa, como vejo e sinto; às vezes com imoderada franqueza. Se dou realce ao subjectivo aqui e além, é que foram as forças espirituais que prevaleceram na Grande Guerra (…)”. E seriam estas dimensões, espiritual e humana, que obrigaram o artista a apresentar a verdade. Criticado por um militar de alta patente que sugeria representar os soldados de outra forma, pois não marchavam em formatura “regulamentar”, na obra A rendição, Sousa Lopes enaltecia o esforço, apesar do desalento, fome, atrocidades, e enaltecia os heróis do sofrimento.

Maria de Aires Silveira

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