AUTO-RETRATOS E OLHARES AMIGOS

Desde o primeiro acerto com a sua maturidade artística que Sousa Lopes cumpria com eficácia o retrato, na linha de grandes mestres da Escola de Belas-Artes de Lisboa, como Miguel Ângelo Lupi ou Columbano. Nessa linha assume tanto o autorretrato, como o retrato de artistas e intelectuais (os pintores Luciano Freire e Columbano, seus mestres na Escola de Belas-Artes de Lisboa, o ator Alexis Ghasne ou o poeta Émile Verhaeren), estes quase todos dominando a sua primeira exposição individual de 1917, como de encomenda, caso do comendador Taveira e esposa.

O retrato assume aqui poses mais convencionais, equilibrando a identificação do rosto com as sinalizações da atividade ou de estatuto dos retratados. A mancha tende a estar ao serviço da eficaz construção dessas identidades, não se agilizando na expressividade da mancha nem na vibração cromática. Contudo, é na gravura, sobretudo na água-forte que seria sua especialidade, que se anunciam outros efeitos de luz. Com um enquadramento que cerca mais o rosto, e já num gosto em colocar as mãos para diálogos com a cabeça, destaque-se o retrato de Alexis Ghasne, que faz cintilar reflexos de luz modeladores do rosto, no próprio contraste com a mancha escura carregada.

Fernando Rosa Dias

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