A SEDUÇÃO DOS RETRATOS DE GUITTE
Sousa Lopes sempre teve um lugar peculiar, quase único, de transição entre as gerações Naturalista e Simbolista, e a Modernista. As suas melhores aproximações modernistas assumiram-se em retratos que surgiram tanto como uma espécie de exercícios de modelo em situação mundana, como poses insólitas saídas da intimidade do seu atelier-mundo. Nesta pesquisa dominaram as modelos femininas destacando-se, na década de 1920, a esposa Guitte.
Este retrato saía do convencional: na pose mais arrojada, em grande parte saída de pequenos exercícios de gravura (Guitte em Expressão Maliciosa ou Cabeça Egípcia), onde explorou a proximidade com o rosto em expressões e poses desafiantes que parecem animadas do atrevimento da modelo, em jogo com as mãos; na expressividade da mancha larga, que desde cedo era marca sua e que se soltava em pinturas como Senhora da Praia ou No Parque; ou na exploração da luz vibrante, com alguma herança impressionista, que descobrira em Paris, sublinhando-se o título Efeitos de Luz (1914).
Os retratos de Guitte de 1927, com destaque para Blusa Azul, são o corolário destas explorações. São autênticos ícones do retrato da pintura portuguesa da década de 1920 e, em efeito mundano, dos nossos Anos Loucos.
Fernando Rosa Dias